Levi Nauter[1]
Depois de algum tempo sem fazer uma ‘prova’, hoje revivi essa sensação.
Ao mesmo tempo pensei muito na minha filha. E começo por esta história. Quando
minha pequena estava na escola infantil, tudo era uma espécie de festa.
Acordava e ia a um espaço no qual, com os/as demais coleguinhas (colegos, como ela chamava os meninos),
iria brincar; haveria um intervalo em que ela poderia tirar uma soneca. Quando
mudou de escola, o primeiro ano de algum modo seguiu uma lógica parecida com a
da pré-escola. O segundo ano, porém, está exigindo um pouco mais de madureza.
Em geral, a soneca vem dando lugar ou aos temas atrasados ou àquelas
brincadeiras não mais possíveis (ou mais escassas) quando se envereda pelos
estudos. Mas certo dia a Maria Flor me saiu com algo interessante para o que eu
ainda não havia prestado muita atenção:
- pai, acho que não quero ir pro terceiro ano. Tem que fazer prova.
Hoje estou na mesma situação da minha filha. Fazendo outra licenciatura,
chego ao fatídico momento da minha primeira prova. Não é qualquer prova, é sem
consulta. Cheguei mais cedo à sala e nela há um cartaz com letras ‘gritantes’
azuis sobre uma parede branca que anuncia: provas individuais e sem consulta.
Além deste texto, a situação toda está me provocando outras questões que passo
a compartilhar.
Vivemos em uma época em que se louva o individualismo. Um carro para cada
pessoa; o sucesso para uma pessoa; os milhões de uma mega-sena para uma pessoa.
Uma só pessoa dá ordem, um chefe, um prefeito, um presidente, um
pastor/padre/bispo. Vivemos a era da individuação. E sem consulta. É proibido
dialogar, conversar, perguntar, ter dúvidas, ser criança, ser adolescente. As
consultas estão fadadas ao crivo estritamente pessoal, individual – você e o
objeto de consulta, mais ninguém.
Fiquei pensando em algum eventual problema que possa haver em consultar
ou retomar conteúdos trabalhados em aula durante um período. Minha prova
trataria de fundamentos psicológicos da educação cujos ícones, entre outros,
destacam-se: Skinner, Freud, Piaget, Vygotsky, Wallon e Rogers. Ora, eu não sou
psicólogo muito menos psicanalista; tampouco pretendo me enveredar por esse
campo do conhecimento. Para bem me sair, li um livro que brevemente abordava
tais autores. Todavia, a leitura de 250 páginas não me torna especialista no
assunto e tampouco me permite pormenorizar as teorias e/ou técnicas usadas
pelos pesquisadores citados. É inegável a utilidade e até a atualidade de
alguns deles. Mas por que eu terei de decorar trechos do livro? Por que não se
verifica também a capacidade do aluno em lidar com o material impresso, o saber
consultar? Qual prejuízo pode haver na consulta aos materiais de estudo?
Evidentemente não há respostas fáceis para essas questões. No entanto, sei
bem da ansiedade provocada pelo anúncio ameaçador de ‘provas individuais sem
consulta’. Enquanto lia essa frase era como se lá estivesse escrito: “não
interessa o que você sabe, importa é o que eu vou perguntar” ou “perdeste tempo
rabiscando no livro enquanto lias, pra que caneta marca texto? Pra que lápis e
caneta?”.
Tive pena de alguns alunos que, inclusive, já passaram por mim.
[1]
Este texto foi escrito enquanto esperei o horário previamente marcado para
fazer a primeira prova presencial do curso de pedagogia que faço a distância.