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quinta-feira, 28 de abril de 2016

A ESCRITA E A ORIENTAÇÃO NA PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU

Levi Nauter




Vem sendo uma grata surpresa as aulas com o professor visitante Lucídio Bianchetti[1]. O curso por ele ministrado possui basicamente dois objetivos: (a) refletirmos sobre a importância da escrita e da leitura como ethos do pesquisador e (b) pensarmos a respeito da relação que envolve um orientador e um orientando na pós-graduação. Suas aulas misturam bastante informação, leituras, piadas, poesias e o raro compartilhar de momentos que bem podem ser caracterizados como ‘falas dos bastidores’ da orientação acadêmica. São histórias recolhidas ao longo de seus 41 anos de experiência como educador.
O professor Bianchetti traz informações preciosas, mas não inéditas – ao menos não em sua maioria. Do meu ponto de vista, o que ele faz é encurtar caminhos. Aquilo que talvez levássemos alguns anos para descobrir nos é revelado na sala de aula, o que de certa forma é bom na medida da comprovação ou não no decorrer da experiência de cada um. Outra característica importante nos encontros é, além da participação de todos – com comentários e boas risadas – a alegria com que o educador ministra suas aulas. Com a sala de aula preparada em formato meia lua, ele passeia por todo o espaço, fala com voz mansa, mas também fala com o corpo[2].
De um modo mais geral esse componente curricular (ou essa disciplina) pode ter seu início atribuído a uma frustração. O professor havia escrito um artigo no qual abordara os temas da relação interpessoal na orientação acadêmica e alguns meandros da produção de dissertações/teses. Encaminhou a uma associação nacional. Não foi publicado. Frustrado e provavelmente sobremaneira indignado resolveu que, juntamente com outros colegas parceiros, iria tratar do tema e buscar publicizá-lo. Nasceu A bússola do escrever[3]. No entanto, uma cadeira universitária não é nem pode ser furto de frustrações, faltaria espaço para tanta cadeira. Equivale dizer, portanto, que há muito mais nesse Seminário Especial.
O Seminário está em andamento, o que me força a comentar – por óbvio – apenas o transcorrido até o momento. Nesse sentido o professor Bianchetti vem tratando de alguns aspectos anteriores à dissertação e à tese. Pode não parecer mas há um caminho (para alguns longo, para outros nem tanto) que se percorre até a chegada do momento da escrita propriamente acadêmica. E mesmo essa etapa pode ser didaticamente subdividida em: um caminho de leituras e um caminho de escrituras. Essa, apresso-me em dizer, é a minha leitura do que estamos vendo. A partir da leitura de Mário Marques[4] é que essa visão vai ficando mais clara.  Marques defende que é impossível, principalmente ao professor, não ler e não escrever. Uma ação estaria ligada a outra, ou seja, quem lê melhor organizará o lido se em seguida escrever a respeito daquilo que leu. E o caminho se seguiria na medida em que os acúmulos de leitura exigiriam cada vez mais escrita. Esta também adquiriria um papel de organizador de ideias, algo fundamental na escrita acadêmica.
Acontece que apenas escrever sobre o que a gente lê/leu não basta. Schopenhauer[5] há muito já fazia esse alerta: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental”. Dito de outra maneira, é necessária uma “liquidificação[6]” de ideias, porém, não para haver um líquido baumaniano e sim para que haja um composto misto que vai ganhando as características daquele que vai registrando as próprias impressões no papel ou no computador.
Seguindo com essa ideia de liquidificador. Nas vezes que fiz suco de abacaxi houve momentos que tive de coá-lo, em outros até açúcar teve de ser levemente adicionado. O texto tem um pouco disso, é preciso torna-lo mais palatável. Essa é uma outra nuance que o professor Bianchetti tem buscado trabalhar conosco. Essa digamos palatabilidade textual se dá, conforme Bianchetti, a partir do contato com  os textos clássicos (Homero, Platão, Italo Calvino, Guimarães Rosa), com aqueles que discutem áreas diferentes da nossa (Eduardo Giannetti, por exemplo) mas que seguem o rigor da escrita, além dos poetas e daqueles que escrevem histórias em quadrinhos. Lucídio Bianchetti faz questão de observar que as obras essencialmente literárias, aquelas que se ocupam da ficção, da verossimilhança têm o poder de traduzir em poucas e belas palavras as nossas humanidades. Ademais, a busca pela ampliação do leque de abrangência de nossos textos tende a nos fazer buscar leituras. Tanto a obra aqui citada de Marques quanto os materiais do professor Bianchetti apontam pra isso. Quer dizer, na medida em que vamos escrevendo (e portanto organizando nossas ideias, nossos pensamentos) vamos notando algumas faltas, algumas lacunas temáticas sobre as quais não temos domínio – o que gera uma espécie de “uma leitura puxa outra”.
A respeito dessas leituras mais específicas, visando à melhoria ou ao aprimoramento de nossos textos, Bianchetti sugere-nos:
BIANCHETTI, L. (Org.). Trama e Texto. Leitura crítica. Escrita criativa. 2 ed. São Paulo: Summus, 2002. Vol. I e II
------------.; MACHADO, A. M. N. (Orgs.). A bússola do escrever. Desafios e estratégias na orientação e escrita de teses e dissertações. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2011
-------------; MEKSENAS, P. (Orgs.). A trama do conhecimento. Teoria, métodos e escrita em ciência e Pesquisa. 2 ed. Campinas/SP: Papirus, 20111.
CARLINO, P. Escribir, ler y aprender en la universidad: uma introducción a la alfabetización académica. Buenos Aires: Fonde de Cultura Económica, 2009.
DELAMONT, S.; PARRY, O.; ATKINSON, P. Creating a Delicate Balance: the doctoral supervisor´s dilemas. Teaching in Higher Education, v. 3, n. 2, p. 157-172, 1998
JESUS, P. C. S. G.. Escrever na educação superior: caminhos para autoria na universidade. Lages, SC: UNIPLAC, 2013 (Dissertação no PPGE/UNIPLAC).
MARQUES, M. O. Escrever é preciso. O princípio da pesquisa. 4 ed. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003.
OLIVEIRA, A.; ARAÚJO, E. R.; BIANCHETTI, L. (Orgs.). Formação do investigador: reflexões em torno da escrita/pesquisa/autoria e orientação. Braga, PT: Universidade do Minho, 2014. Disponível em: http//www.comunicacao.uminho.pt/cecs/2
SCHNETZLER, R. P.; OLIVEIRA, C. (Orgs.). Orientadores em foco. O processo de orientação de teses e dissertações em educação. Brasília: Liber Livros, 2010.
WALKER, M.; THOMSON, P. (Edited by). The Routledge Doctoral Supervisor´s Companion. Supporting effective research in Education and the Social Sciences. London and New York: Routledge, 2010.
ALVES, V. M.; ESPINDOLA, I. C.; BIANCHETTI, L. A relação orientador-orientando na Pós-graduação stricto sensu no Brasil: a autonomia dos discentes em discussão. Revista Educação em Questão (UFRN. Impresso), v. 43, p. 135-156, 2012.
CORRÊA, P. S. de A. A orientação das dissertações e teses como objeto de estudo das pesquisas acadêmicas: história e historiografia. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n.47, Set.2012. Disponível em: https://www.fe.unicamp.br/revistas/ged/histedbr/article/view/4228/3432 Acesso em: 23 de abril de 2015.
ECO, U. Como escrevo. In: -----------. Sobre a literatura. Ensaios. São Paulo e Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 277 a 305
ELLSWORTH, E. Modos de endereçamento: uma coisa de cinema; uma coisa de educação também. In: SILVA, Tomaz Tadeu. Nunca fomos humanos: nos rastros do sujeito. Belo Horizonte: Autêntica, 2001. p. 9 a 76.
FOUCAULT, M. O que é um autor? E: A escrita de si. In: --------------. O que é um autor? Lisboa: Veja/Passagens, 1992. p. 29-88 e 127 a 160.
GERMANO, W. Cómo transformar tu Tesis en libro. Madrid: Siglo XXI, 2008.
LEITE FILHO, G. A.; MARTINS, G. de A. Relação orientador-orientando e suas influências na elaboração de teses e dissertações. RAE. São Paulo, FAE-USP, n. 99, p. 99-109, 2006.
MAZZILLI, S. Orientação de dissertações e teses: em que consiste? Araraquara: Junqueira&Marin, 2009.
SILVA JUNIOR, V. P. da; GONÇALVES-SILVA, L. L.; WEY, W. Produtivismo na pós-graduação. Nada é tão ruim, que não possa piorar. É chegada a vez dos orientandos! Movimento, Porto Alegre, v. 20, n. 4, p. 1423-1445, out./dez. de 2014. Disponível em: seer.ufrgs.br/index.php/Movimento/article/download/46187/32486
TURNES, L. Pesquisa e pós-graduação. Um estudo de caso sobre os usos das tecnologias por parte de doutorandos. Florianópolis, PPGE/UFSC, 2014. Dissertação.
VIANA, C. M. Q. O processo didático da orientação acadêmica: A voz do orientando. In: XIV ENDIPE: Trajetórias e processos de ensinar e aprender: Lugares, memórias e culturas. Porto Alegre, Edipucrs, 2008a, p. 1-17.
------------. A relação orientador-orientando na pós-graduação stricto sensu. Linhas Críticas. Brasília, v. 14, n. 26, p. 93-109, jan./jun. 2008b
WATERS, L. Inimigos da esperança. Publicar, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
WELLINGTON, J. Sarching for ´doctorateness´. Studies in Higher Education. http://dx.doi.org/10.1080/03075079.2011.634901
ZUIN, A. A. S.; BIANCHETTI, L. O produtivismo na era do “publique, apareça ou pereça”: um equilíbrio difícil e necessário. Cad. Pesqui. [online]. 2015, vol.45, n.158, pp. 726-750. ISSN 1980-5314. http://dx.doi.org/10.1590/198053143294.

Em relação à leituras menos acadêmicas mas não menos rigorosas em termos de escrita, Bianchetti sugere-nos Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa. Mas também sugere George Steiner, Henry Thoreau. Ítalo Calvino e todos os clássicos da literatura brasileira.
Por fim um alerta que ele fez questão de repetir várias vezes: ler essas obras todas, por si só, não garante uma boa dissertação nem uma boa tese. Ler apenas nos deixa mais despertos para os pequenos detalhes, lugar onde moram as diferenças.
E quanto aos temas que a gente pretende pesquisar? “Não deixe de fora o que é considerado clássico dentro do seu tema de pesquisa”, foi o seu conselho.
As aulas seguem.
E em surgindo novidades, relato aqui.







NOTAS

[1] Pedagogo pela UPF, mestre em educação (PU-RJ) e doutor em educação (PUC-SP) com pós-doutorado na Universidade do Porto. É autor e coordenador de diversas obras voltadas ao tema da escrita acadêmica – algumas aparecerão referenciadas ao longo deste texto.
[2] Numa das aulas, ao exemplificar que se deve conversar na altura dos olhos de uma criança, naturalmente imitava, ao mesmo tempo, a criança e o educador conversando com ela. Não titubeou em  sentar no chão para a representação.
[3]A Bússola do Escrever: desafios e estratégias na orientação e escrita de teses e dissertações está na 3ª edição, sendo publicada pela Cortez Editora.
[4] MARQUES, M. O. Escrever é preciso. O princípio da pesquisa. 4 ed. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003. Mário Osório Marques foi professor de Bianchetti. Não menos importante é dizer que as obras de Marques estão sendo publicadas pela editora Vozes.
[5] http://ateus.net/artigos/filosofia/sobre-livros-e-leitura/pdf/
[6] Não sei se existe o termo, por isso entre aspas. Mas foi o melhor que me ocorreu no momento da escrita.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O PRIMEIRO BAQUE

Levi Nauter




Há vários ditos populares acerca do número ordinal. Não é difícil ouvir coisas do tipo “a primeira vez a gente nunca esquece”, “a primeira impressão é a que fica” – entre outros. Acrescento que o primeiro baque a gente também nunca esquece.
No segundo semestre de 2015, prestei provas à seleção de doutorado da UNISINOS. Um tempo depois recebi a notícia que me habilitava à entrevista com alguns professores dessa instituição. Mais alguns meses e me chegou a notícia da aprovação. Ainda mais adiante, já em 2016, a informação de que fora contemplado com uma bolsa de estudos, o que me isentaria de qualquer tipo de taxa/valor. Feliz com a notícia, aproveitei as férias com a esposa e a filha. Tirei um bom tempo para leituras, essencialmente li bastante material relativo ao tema que vem me movendo para a pesquisa.
O mês de março foi fecundo com os dois grupos de pesquisa dos quais faço parte. No entanto, minha ansiedade era de tal modo grande que não via a hora de iniciar os estudos oficialmente no doutorado.
Mas eis que chegou abril. Com ele veio a mudança de escola. Com o objetivo de dar conta das demandas, saí de um lugar com 300 alunos passei a trabalhar numa com 1300 e com três turnos. E depois de estrear na nova escola, dirigi-me a UNISINOS. Era a semana acadêmica – evento no qual os “antigo” dão boas-vindas aos novos estudantes. Pela manhã uma palestra bem interessante com a professora Traversini[1] - em que pese a linguagem por vezes ter sido foucaultiana demais. A referida palestrante ganhou mimos, foi aplaudida. Mas os doutorandos foram orientados a aguardarem no auditório para uma breve reunião.
Todos devidamente sentados. Caderno e caneta na mão. As bolsas de estudos haviam sido cortadas. Desse momento em diante como que saí de mim.
A partir daquele instante nada mais parecia interessar. Os três egressos que palestraram, soavam-me como se falassem ao vento. A exceção foi a Juliane Morgenstern, provavelmente pela surpresa que tive de vê-la dizendo o que tinha a dizer dentro do tempo estipulado (algo que precisamos aprender). No dia seguinte não participei das atividades matutinas. Fiquei em casa ‘matutando’. À tarde reuni-me com outros colegas numa assembleia de alunos. Foi uma interessante experiência. Ainda assim estava meio longe.
Ao longo daqueles dias meus pensamentos fervilhavam e trilhavam uma série de caminhos. Teria sido em vão os momentos que me dedicara a estudar na praia? E todo o trabalho que me deu ter de trocar de escola, de horário e de turno? O que diria à minha filha, já que havia lhe dito que não mais a buscaria na escola? Teria de refazer toda a seleção (de bolsa e de ingresso no doutorado) no ano seguinte? O projeto sobre o qual me dediquei visando à aprovação seria aceito sem alterações por outro PPG? E minha mulher que, junto comigo, comemorou minha aprovação? O que iria ler para alguma seleção que abrisse, por exemplo, no mês que vem? Nada mais importava naquele evento preparado com tanto carinho, inclusive por ex-colegas de mestrado. Foram dias de angústia.
Mas ontem, dia 13-04-16, veio a boa-nova: as bolsas foram ‘devolvidas’. Houve justiça a um PPG que tem, desde 2008, a marca da excelência. Seria injusto com um dos poucos PPGs nota 7 no país. Seria injusto com um PPG que sempre cobrou dos orientandos a observação rigorosa dos prazos. O alívio foi maravilhoso!
Contudo, a situação política que vivemos ainda nos deixa em estado de alerta.
O que virá por aí? O que nos aguarda?
Espero que seja apenas arranjar tempo pra estudar.







[1] A professora Dra. Clarice Salete Traversini é docente na Faced/UFRGS.