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sexta-feira, 25 de março de 2016

AS BANCAS

Levi Nauter



Inteligentemente Demo provoca nossa reflexão ao questionar por que não temos orientação nos ensinos fundamental e médio e, no entanto, depois precisamos de um. Há uma complexidade nessa resposta; ela não é tão simples assim. De qualquer maneira é interessante pensar que passamos pelo menos 11 anos estudando (ou tentando) sem alguém com a função de orientar-nos e, de repente, tudo muda.
Na graduação eu não tive um orientador como seria o ideal. Somente na época do TCC é que tive de sair à cata. Quem eu escolheria se mal tinha noção do que significava pesquisa acadêmica? Qual critério era importante quando não se tem a mínima ideia do que vai pesquisar? No meu caso, estudante de letras, havia certa aversão às regras gramaticais. Explico-me. As regras são milenares estão com o questionável objetivo de uniformizar os discursos, de ajeitá-los com a finalidade de que qualquer um possa se expressar de maneira inteligível. Acontece, porém, que saber regras não produz conteúdo. Não há absolutamente nenhuma comprovação de que as regras nos tornem mais críticos, mais conscientes, mais aptos para intervirmos na sociedade. Tudo isso pra dizer que teorias de ensino da gramática não me interessavam. Fui para a teoria literária; ela me possibilitava divagar e olhar fenômenos mais diversos e excitantes de trabalhar.
No mestrado foi bem diferente. Iniciei-o já sabendo quem me orientaria, desde o primeiro dia. Os benefícios são maiores porque o orientador tem mais estrada, conhece os pedregulhos do caminho, os quebra-molas, as bifurcações, além de saber – nas esquinas – qual a rua principal. Isso ajuda a gente a cansar menos e a aproveitar mais a paisagem enquanto andamos.A orientação nos dá (ou pelo menos deveria ser assim) uma tranquilidade para estudar e escrever. Serve para sabermos se estamos ou não no caminho certo nos níveis metodológicos, instrumentais, conceituais, entre outros. Contudo, o orientador não serve para cuidar de datas e prazos; isso é coisa de orientando.
Onde entram as bancas? Elas entram a partir do orientador. O orientador é quem faz a banca ter importância ou não. Relembrando o que disse em parágrafos anteriores, tanto no meu tempo de educação básica quanto no de educação superior, lato sensu, a banca era um elemento inexistente. A partir da pós stricto sensu, porém, tudo mudou.
As bancas, do meu ponto de vista, possuem dois desdobramentos de importância. O primeiro diz respeito às iniciais, ou as de qualificação de projetos. Nelas o pesquisador/orientando faz uma espécie de roteiro daquilo que pretende pesquisar. O roteiro precisará, óbvia e inevitavelmente, da fatídica pergunta científica geradora de todo o itinerário da pesquisa. Além disso, deverá conter o referencial teórico, o estado da arte, o diálogo com esses dois suportes (porque basicamente eles é que vão permitir nosso projeto parar em pé) e a originalidade do pesquisador/orientando. Esse último tema, a originalidade da pesquisa, me encasquetava. Como a minha pesquisa seria original em 2016, se já nasceram tantos outros pesquisadores antes de mim e certamente com mais qualidade que eu? Acontece que a originalidade vai se apresentando na medida do diálogo entre o referencial teórico com o estado da arte e aquilo que me move a pesquisar. Um exemplo. Quando pensei em pesquisar o tema da EJA[i] no mestrado mal sabia aonde ir. Foi o diálogo com meu referencial teórico e o estado da arte que me foram possibilitando ‘desenhar’ um roteiro, um itinerário, um lugar pra chegar. Minha dissertação não foi original por ter sido o primeiro a falar de EJA; nem porque falei do projeto CEREJA, muito menos por ter entre os referenciais teóricos Paulo Freire. Minha dissertação foi original porque falando de EJA abordei o CEREJA[ii], o Paulo Freire e tratei das potencialidades, dos limites e contradições de um projeto que deveria ter sido baseado na participação popular e não foi. O tratamento dado é que foi original. Só.Tal originalidade, no entanto, não escapou (nem teria como ser diferente) do crivo inicial da ‘banca de qualificação’. Essa banca tem, assim como a final, o objetivo de balizar o caminho a ser trilhado pelo pesquisador; não há dicas de atalhos, senão o encurtamento das leituras a serem feitas.
O segundo desdobramento de importância das bancas está na banca final. A chegada a essa fase pressupõe que o orientando passou pelo caminho indicado na banca inicial. De modo algum se imagina que o orientando tenha feito atalhos ou tenha seguido alguma receita. A banca inicial, como já disse não se presta a isso – mesmo que equivocadamente assim tenha percebido o orientando. Espera-se, sim, que ele tenha ao menos acatado alguma sugestão de obra específica a ser lida, algum artigo, alguma tese ou dissertação; afinal, no entender da banca, as dicas iniciais são seminais pra se chegar bem à final. A banca final, portanto, serve para arguições a respeito do caminho seguido pelo orientando em consonância com seu orientador. É preciso lembrar que o orientador não é dono do orientando; apenas orienta, sugere, propõe. Significa dizer, em outras palavras, que na banca final o orientador terá cumprido seu papel e a banca vai questionar, pontuar, elogiar, criticar, aplaudir ou esbravejar tão somente o orientando. As concordâncias ou discordâncias serão relativas aos caminhos escolhidos por ele para bem demonstrar sua chegada ou, como opto por dizer, provisórias conclusões.
Seja na banca inicial seja na final, o bancando, ou melhor, orientando precisa ter claro algo que geralmente o faz tremer. A banca não é pessoal. Explico-me. Evidentemente que ela se dirige a um orientando, que possui um nome, um objetivo, um plano, enfim. Mas a banca não é de cunho pessoal. As arguições não têm interesses pessoais, mas intelectuais. O objetivo não é ‘destruir’ o outro, ‘derrubar’ os argumentos do outro. O diálogo que se estabelece entre os argüidores e o orientando têm como única finalidade qualificar o projeto (na inicial) ou qualificar a dissertação ou tese (na final). Se há algum aspecto teórico-metodológico frágil nos escritos do orientando é a banca que pode tornar a fragilidade em potência, em força, em robustez. Em síntese, a banca faz com que nossas idéias fiquem de pé e não caiam por qualquer vento nem por uma rasteira.
A banca precisa ser enxergada como o grande momento de aprendizagem. Afinal de contas ela é composta por pesquisadores que direta ou indiretamente dialogam com aquilo ao qual pretendemos enveredar para olhar, observar, pesquisar. Todas as sugestões, a priori, serão para que não cometamos erros ou equívocos similares ao que alguns da mesa provavelmente tenham cometido. Sem esse momento nas nossas investigações estaremos falando mais do mesmo, sem darmos contribuição para a ciência. Sem uma banca na nossa vida seremos como um sino que toca e as pessoas, de tão acostumadas com a mesmice, não se importando com o barulho seguem suas vidas normalmente. Essa é uma das razões de eu não gostar de cursos que, para a conclusão e aquisição do diploma, pedem apenas um artigo. A meu ver curso que se preze tem de ter banca. Na banca a gente dialoga e se qualifica. No artigo a gente monologa e ganha certificado. Se quisermos ser relevantes precisamos dialogar. Dialogar não significa concordar, mas significa ouvir o outro. Significa também respeitar a caminhada de cada um e aprender com quem já tem mais estrada que nós.
Sigamos em frente.



NOTAS


[i] Educação de Jovens e Adultos.
[ii] Abreviatura de Centro Regional de Educação de Jovens e Adultos. À época o município de Gravataí criou pólos de estudos em lugares populosos e com alta demanda por estudos. Eram 4 no total.


DEMO, Pedro. Professor do futuro e reconstrução do conhecimento. 6ª ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009.


segunda-feira, 7 de março de 2016

A PRIMEIRA MUDANÇA

Levi Nauter




Era final de fevereiro. O ano, 1999. Até então havia trabalhado apenas na empresa privada. Havia quatro anos de casado. E, sim, sonhava com o serviço público. Nada entendia sobre nossos atos serem ou não políticos – como hoje compreendo que sejam. Nem mesmo sabia da existência de um tal Paulo Freire que posteriormente seria uma das minhas referências teóricas. Portanto, dos 17 anos de servidor público municipal 14 foram na escola da qual estou de saída. Nela ingressei com o ensino médio e dela saio doutorando. Minha mudança, aparentemente tem a ver com o doutorado. Mas não é só isso.
Quando se trabalha em um determinado lugar a gente começa a criar raízes. É necessária uma luta-tranquila[1]cotidiana a fim de não ‘entrarmos’ na fôrma ou na caixa; do contrário a rotina vai ganhando terreno, criando corpo e, quando nos damos conta, nos acomodamos e, se não tarde, o tempo terá passado. Quando da minha graduação, os horários foram tranquilos: trabalhava durante o dia e, à noite, cursava letras. Nesse meio tempo, comecei a experiência de passar pela Secretaria Municipal de Educação (SMED). Chegando lá fui exercer atividades no departamento administrativo e de pessoal; aprendi sobre alguns meandros das nomeações públicas, descobri o quanto há de professores em licença, em tratamento médico. Igualmente lá fui o primeiro Ouvidor. Ouvi muitas lamúrias, mas também vi uma série de projetos interessantes que as escolas colocaram em prática. Dialogava diariamente com o grupo de pedagogos, com os motoristas das vans escolares, com as auxiliares de serviços gerais, com o departamento financeiro. Ao lado da Secretaria funcionava a biblioteca pública. Lá conheci Paulo Freire. Pedagogia da indignação, Cartas a Cristina, Pedagogia da Esperança e Pedagogia dos Sonhos Possíveis foram algumas das obras que li. Lia por uma única razão: ele fora professor de língua portuguesa. A escrita de Freire ainda me encanta por conter uma mescla de boa gramática com uma ‘nordestinidade’ maravilhosa. Quando li À sombra desta mangueira era como se sob a sombra eu estivesse, acompanhado de um senhor calmo, sereno e tranquilo que me contava histórias. Nunca mais deixei de lê-lo. Agora minha leitura é um tanto mais técnica, talvez ideológica.
Em três anos, minha estada foi de intenso aprendizado em um município com trinta mil estudantes e 66 escolas municipais.
Saí da SMED e voltei à mesma escola de antes. Reencontrei antigos e novos colegas. A escola de ensino fundamental incompleto dera lugar a todas as séries. No entanto, meu retorno trazia outro Levi. Um Levi com óculos. Óculos referenciados e referenciados em leituras de esquerda. O que nalgum momento me fora usado como ameaça (‘vou ligar pra SMED’) já não cabia. Em razão das leituras, dos estudos na graduação e na vivência com vários diretores e várias diretoras de escolas, as eleições dos gestores não mais me assustava. As campanhas eleitorais, os momentos de disputa política no interior das escolas começaram a ter para mim o sentido que Almerindo Janela Afonso dá, a saber, que a escola é uma espécie de laboratório vivo daquilo que se vai vivenciar para além de seus muros.
Na medida em que os anos foram passando um conhecido adágio ganhava força: santo de casa não faz milagres. Minhas palavras já não eram tão escutadas; se escutadas, a elas não se davam mais ouvidos. Era necessário que algo que eu tivesse falado acontecesse para, aí sim, eu ser ouvido. Num determinado ponto da minha experiência, não conseguia encontrar o que se poderia denominar motivação. Nesse estágio, fiz o que deveria ser feito por quem é servidor público: cumprir com suas obrigações. Sabia como dar conta delas e assim fazia sem ilusões, sem acréscimos e decréscimos – apenas passe a fazer minha obrigação.
O estopim de tudo foi o que, na guerra, se denomina “fogo amigo”. Tendo cursado algumas cadeiras do mestrado, com o apoio e o consentimento da direção escolar, passei a ser alvo de denúncia na SMED. O/a denunciante, apoiado no anonimato, alegava que eu não cumpria minha carga horária. Meu “amigo” não se preocupava com a qualidade do serviço que eu prestava, se era bom ou ruim ou até mais ou menos. Interessava a esse “amigo” me ver todos os dias. No demais, subentendidamente, eu devia estar a contento. De outra parte, a SMED não demonstrou preocupação em um profundo esclarecimento – se pensarmos que nenhum de seus representantes me ouviu. Eu jamais conheci a ouvidora ou o ouvidor que recebeu a denúncia, assim como sequer vi as figuras que compunham a chamada (e, por alguns, temida) assessoria jurídica daquela secretaria.
É fato que o dito até aqui bem poderia ter outros contornos, poderia ter sido olhado sob outro aspecto. Tem, no entanto, a minha perspectiva, as minhas ‘conjeturações’. Portanto, significam a mim justamente por terem sido ditas da maneira que o fiz. A partir do ângulo que olhei é que o texto demonstra a existência de jogos de poder, de interesses e ganha contornos políticos. Guardadas as proporções, há uma remonta ao que o saudoso Foucault chamou de microfísica do poder. E muito embora não haja um balaio de citações, só produzi essa escrita em razão da intertextualidade.
Por tudo o que registrei, o saldo da minha experiência é positivo. Saio sem pensar em voltar, é verdade. Deixo a escola com a intenção de galgar outros espaços, outras experiências, outras disputas políticas. Minha mente carece de outros mundos, outras gentes, outras realidades para as quais olhar. Deixo a escola e dirijo-me a outra querendo não durar mais do que cinco anos. Deixo a escola pequena e vou para uma bem maior. Despeço-me de uma cujo pátio alaga em dias de chuva; daquela que, tendo ganhado um muro no OP (Orçamento Participativo) ®existe há mais de vinte anos com telas que não resistem a um bom alicate. Faço um aceno de adeus a um lugar com um péssimo pátio, totalmente desnivelado, com rampas ensejadoras da não inclusão de pessoas com deficiências. O aceno não me espelha nem me reflete em algumas janelas devido à falta de vidros. Saio de uma escola na qual por vezes me fez entender Graciliano Ramos[2]:

(...) iam meter-me na escola. Já me haviam falado nisso, em horas de zanga, mas nunca me convencera de que realizassem a ameaça. A escola, segundo informações dignas de crédito, era um lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes.

O que me espera na nova escola? Ainda não sei. Mas assim que souber e conto por aqui.






NOTAS



[1] Chamo luta-tranquila o que também poderia ser chamado de consciência, ou seja, uma atitude constante de não naturalizar questões antiéticas, não compactuar com injustiças, entre outras posturas.
[2] Trecho do livro Infância, de Graciliano Ramos, Editora Record, pág. 104.

quarta-feira, 2 de março de 2016

POESIA 2




"Cada maloqueiro tem um saber empírico"


CRIOLO
verso da poesia Esquiva da esgrima, do CD 'Convoque seu Buda'.