Levi Nauter
Inteligentemente
Demo provoca nossa reflexão ao questionar por que não temos orientação nos
ensinos fundamental e médio e, no entanto, depois precisamos de um. Há uma
complexidade nessa resposta; ela não é tão simples assim. De qualquer maneira é
interessante pensar que passamos pelo menos 11 anos estudando (ou tentando) sem
alguém com a função de orientar-nos e, de repente, tudo muda.
Na
graduação eu não tive um orientador como seria o ideal. Somente na época do TCC
é que tive de sair à cata. Quem eu escolheria se mal tinha noção do que
significava pesquisa acadêmica? Qual critério era importante quando não se tem
a mínima ideia do que vai pesquisar? No meu caso, estudante de letras, havia
certa aversão às regras gramaticais. Explico-me. As regras são milenares estão
com o questionável objetivo de uniformizar os discursos, de ajeitá-los com a
finalidade de que qualquer um possa se expressar de maneira inteligível. Acontece,
porém, que saber regras não produz conteúdo. Não há absolutamente nenhuma
comprovação de que as regras nos tornem mais críticos, mais conscientes, mais
aptos para intervirmos na sociedade. Tudo isso pra dizer que teorias de ensino
da gramática não me interessavam. Fui para a teoria literária; ela me
possibilitava divagar e olhar fenômenos mais diversos e excitantes de
trabalhar.
No
mestrado foi bem diferente. Iniciei-o já sabendo quem me orientaria, desde o
primeiro dia. Os benefícios são maiores porque o orientador tem mais estrada,
conhece os pedregulhos do caminho, os quebra-molas, as bifurcações, além de
saber – nas esquinas – qual a rua principal. Isso ajuda a gente a cansar menos
e a aproveitar mais a paisagem enquanto andamos.A orientação nos dá (ou pelo
menos deveria ser assim) uma tranquilidade para estudar e escrever. Serve para
sabermos se estamos ou não no caminho certo nos níveis metodológicos,
instrumentais, conceituais, entre outros. Contudo, o orientador não serve para
cuidar de datas e prazos; isso é coisa de orientando.
Onde
entram as bancas? Elas entram a partir do orientador. O orientador é quem faz a
banca ter importância ou não. Relembrando o que disse em parágrafos anteriores,
tanto no meu tempo de educação básica quanto no de educação superior, lato sensu, a banca era um elemento
inexistente. A partir da pós stricto
sensu, porém, tudo mudou.
As
bancas, do meu ponto de vista, possuem dois desdobramentos de importância. O
primeiro diz respeito às iniciais, ou as de qualificação de projetos. Nelas o
pesquisador/orientando faz uma espécie de roteiro daquilo que pretende
pesquisar. O roteiro precisará, óbvia e inevitavelmente, da fatídica pergunta
científica geradora de todo o itinerário da pesquisa. Além disso, deverá conter
o referencial teórico, o estado da arte, o diálogo com esses dois suportes
(porque basicamente eles é que vão permitir nosso projeto parar em pé) e a
originalidade do pesquisador/orientando. Esse último tema, a originalidade da
pesquisa, me encasquetava. Como a minha pesquisa seria original em 2016, se já
nasceram tantos outros pesquisadores antes de mim e certamente com mais
qualidade que eu? Acontece que a originalidade vai se apresentando na medida do
diálogo entre o referencial teórico com o estado da arte e aquilo que me move a
pesquisar. Um exemplo. Quando pensei em pesquisar o tema da EJA[i]
no mestrado mal sabia aonde ir. Foi o diálogo com meu referencial teórico e o
estado da arte que me foram possibilitando ‘desenhar’ um roteiro, um
itinerário, um lugar pra chegar. Minha dissertação não foi original por ter
sido o primeiro a falar de EJA; nem porque falei do projeto CEREJA, muito menos
por ter entre os referenciais teóricos Paulo Freire. Minha dissertação foi
original porque falando de EJA abordei o CEREJA[ii],
o Paulo Freire e tratei das potencialidades, dos limites e contradições de um
projeto que deveria ter sido baseado na participação popular e não foi. O tratamento
dado é que foi original. Só.Tal originalidade, no entanto, não escapou (nem
teria como ser diferente) do crivo inicial da ‘banca de qualificação’. Essa
banca tem, assim como a final, o objetivo de balizar o caminho a ser trilhado
pelo pesquisador; não há dicas de atalhos, senão o encurtamento das leituras a
serem feitas.
O segundo
desdobramento de importância das bancas está na banca final. A chegada a essa
fase pressupõe que o orientando passou pelo caminho indicado na banca inicial. De
modo algum se imagina que o orientando tenha feito atalhos ou tenha seguido
alguma receita. A banca inicial, como já disse não se presta a isso – mesmo que
equivocadamente assim tenha percebido o orientando. Espera-se, sim, que ele
tenha ao menos acatado alguma sugestão de obra específica a ser lida, algum
artigo, alguma tese ou dissertação; afinal, no entender da banca, as dicas
iniciais são seminais pra se chegar bem à final. A banca final, portanto, serve
para arguições a respeito do caminho seguido pelo orientando em consonância com
seu orientador. É preciso lembrar que o orientador não é dono do orientando; apenas orienta, sugere, propõe. Significa
dizer, em outras palavras, que na banca final o orientador terá cumprido seu
papel e a banca vai questionar, pontuar, elogiar, criticar, aplaudir ou
esbravejar tão somente o orientando. As concordâncias ou discordâncias serão
relativas aos caminhos escolhidos por ele para bem demonstrar sua chegada ou,
como opto por dizer, provisórias conclusões.
Seja na
banca inicial seja na final, o bancando, ou melhor, orientando precisa ter
claro algo que geralmente o faz tremer. A banca não é pessoal. Explico-me. Evidentemente
que ela se dirige a um orientando, que possui um nome, um objetivo, um plano,
enfim. Mas a banca não é de cunho pessoal. As arguições não têm interesses
pessoais, mas intelectuais. O objetivo não é ‘destruir’ o outro, ‘derrubar’ os
argumentos do outro. O diálogo que se estabelece entre os argüidores e o
orientando têm como única finalidade qualificar o projeto (na inicial) ou
qualificar a dissertação ou tese (na final). Se há algum aspecto
teórico-metodológico frágil nos escritos do orientando é a banca que pode
tornar a fragilidade em potência, em força, em robustez. Em síntese, a banca
faz com que nossas idéias fiquem de pé e não caiam por qualquer vento nem por
uma rasteira.
A banca
precisa ser enxergada como o grande momento de aprendizagem. Afinal de contas
ela é composta por pesquisadores que direta ou indiretamente dialogam com
aquilo ao qual pretendemos enveredar para olhar, observar, pesquisar. Todas as
sugestões, a priori, serão para que
não cometamos erros ou equívocos similares ao que alguns da mesa provavelmente
tenham cometido. Sem esse momento nas nossas investigações estaremos falando
mais do mesmo, sem darmos contribuição para a ciência. Sem uma banca na nossa
vida seremos como um sino que toca e as pessoas, de tão acostumadas com a
mesmice, não se importando com o barulho seguem suas vidas normalmente. Essa é
uma das razões de eu não gostar de cursos que, para a conclusão e aquisição do
diploma, pedem apenas um artigo. A meu ver curso que se preze tem de ter banca.
Na banca a gente dialoga e se qualifica. No artigo a gente monologa e ganha certificado.
Se quisermos ser relevantes precisamos dialogar. Dialogar não significa
concordar, mas significa ouvir o outro. Significa também respeitar a caminhada
de cada um e aprender com quem já tem mais estrada que nós.
Sigamos
em frente.
NOTAS
[i]
Educação de Jovens e Adultos.
[ii] Abreviatura
de Centro Regional de Educação de Jovens e Adultos. À época o município de
Gravataí criou pólos de estudos em lugares populosos e com alta demanda por
estudos. Eram 4 no total.
DEMO, Pedro. Professor do futuro e reconstrução do conhecimento. 6ª ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009.
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