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segunda-feira, 7 de março de 2016

A PRIMEIRA MUDANÇA

Levi Nauter




Era final de fevereiro. O ano, 1999. Até então havia trabalhado apenas na empresa privada. Havia quatro anos de casado. E, sim, sonhava com o serviço público. Nada entendia sobre nossos atos serem ou não políticos – como hoje compreendo que sejam. Nem mesmo sabia da existência de um tal Paulo Freire que posteriormente seria uma das minhas referências teóricas. Portanto, dos 17 anos de servidor público municipal 14 foram na escola da qual estou de saída. Nela ingressei com o ensino médio e dela saio doutorando. Minha mudança, aparentemente tem a ver com o doutorado. Mas não é só isso.
Quando se trabalha em um determinado lugar a gente começa a criar raízes. É necessária uma luta-tranquila[1]cotidiana a fim de não ‘entrarmos’ na fôrma ou na caixa; do contrário a rotina vai ganhando terreno, criando corpo e, quando nos damos conta, nos acomodamos e, se não tarde, o tempo terá passado. Quando da minha graduação, os horários foram tranquilos: trabalhava durante o dia e, à noite, cursava letras. Nesse meio tempo, comecei a experiência de passar pela Secretaria Municipal de Educação (SMED). Chegando lá fui exercer atividades no departamento administrativo e de pessoal; aprendi sobre alguns meandros das nomeações públicas, descobri o quanto há de professores em licença, em tratamento médico. Igualmente lá fui o primeiro Ouvidor. Ouvi muitas lamúrias, mas também vi uma série de projetos interessantes que as escolas colocaram em prática. Dialogava diariamente com o grupo de pedagogos, com os motoristas das vans escolares, com as auxiliares de serviços gerais, com o departamento financeiro. Ao lado da Secretaria funcionava a biblioteca pública. Lá conheci Paulo Freire. Pedagogia da indignação, Cartas a Cristina, Pedagogia da Esperança e Pedagogia dos Sonhos Possíveis foram algumas das obras que li. Lia por uma única razão: ele fora professor de língua portuguesa. A escrita de Freire ainda me encanta por conter uma mescla de boa gramática com uma ‘nordestinidade’ maravilhosa. Quando li À sombra desta mangueira era como se sob a sombra eu estivesse, acompanhado de um senhor calmo, sereno e tranquilo que me contava histórias. Nunca mais deixei de lê-lo. Agora minha leitura é um tanto mais técnica, talvez ideológica.
Em três anos, minha estada foi de intenso aprendizado em um município com trinta mil estudantes e 66 escolas municipais.
Saí da SMED e voltei à mesma escola de antes. Reencontrei antigos e novos colegas. A escola de ensino fundamental incompleto dera lugar a todas as séries. No entanto, meu retorno trazia outro Levi. Um Levi com óculos. Óculos referenciados e referenciados em leituras de esquerda. O que nalgum momento me fora usado como ameaça (‘vou ligar pra SMED’) já não cabia. Em razão das leituras, dos estudos na graduação e na vivência com vários diretores e várias diretoras de escolas, as eleições dos gestores não mais me assustava. As campanhas eleitorais, os momentos de disputa política no interior das escolas começaram a ter para mim o sentido que Almerindo Janela Afonso dá, a saber, que a escola é uma espécie de laboratório vivo daquilo que se vai vivenciar para além de seus muros.
Na medida em que os anos foram passando um conhecido adágio ganhava força: santo de casa não faz milagres. Minhas palavras já não eram tão escutadas; se escutadas, a elas não se davam mais ouvidos. Era necessário que algo que eu tivesse falado acontecesse para, aí sim, eu ser ouvido. Num determinado ponto da minha experiência, não conseguia encontrar o que se poderia denominar motivação. Nesse estágio, fiz o que deveria ser feito por quem é servidor público: cumprir com suas obrigações. Sabia como dar conta delas e assim fazia sem ilusões, sem acréscimos e decréscimos – apenas passe a fazer minha obrigação.
O estopim de tudo foi o que, na guerra, se denomina “fogo amigo”. Tendo cursado algumas cadeiras do mestrado, com o apoio e o consentimento da direção escolar, passei a ser alvo de denúncia na SMED. O/a denunciante, apoiado no anonimato, alegava que eu não cumpria minha carga horária. Meu “amigo” não se preocupava com a qualidade do serviço que eu prestava, se era bom ou ruim ou até mais ou menos. Interessava a esse “amigo” me ver todos os dias. No demais, subentendidamente, eu devia estar a contento. De outra parte, a SMED não demonstrou preocupação em um profundo esclarecimento – se pensarmos que nenhum de seus representantes me ouviu. Eu jamais conheci a ouvidora ou o ouvidor que recebeu a denúncia, assim como sequer vi as figuras que compunham a chamada (e, por alguns, temida) assessoria jurídica daquela secretaria.
É fato que o dito até aqui bem poderia ter outros contornos, poderia ter sido olhado sob outro aspecto. Tem, no entanto, a minha perspectiva, as minhas ‘conjeturações’. Portanto, significam a mim justamente por terem sido ditas da maneira que o fiz. A partir do ângulo que olhei é que o texto demonstra a existência de jogos de poder, de interesses e ganha contornos políticos. Guardadas as proporções, há uma remonta ao que o saudoso Foucault chamou de microfísica do poder. E muito embora não haja um balaio de citações, só produzi essa escrita em razão da intertextualidade.
Por tudo o que registrei, o saldo da minha experiência é positivo. Saio sem pensar em voltar, é verdade. Deixo a escola com a intenção de galgar outros espaços, outras experiências, outras disputas políticas. Minha mente carece de outros mundos, outras gentes, outras realidades para as quais olhar. Deixo a escola e dirijo-me a outra querendo não durar mais do que cinco anos. Deixo a escola pequena e vou para uma bem maior. Despeço-me de uma cujo pátio alaga em dias de chuva; daquela que, tendo ganhado um muro no OP (Orçamento Participativo) ®existe há mais de vinte anos com telas que não resistem a um bom alicate. Faço um aceno de adeus a um lugar com um péssimo pátio, totalmente desnivelado, com rampas ensejadoras da não inclusão de pessoas com deficiências. O aceno não me espelha nem me reflete em algumas janelas devido à falta de vidros. Saio de uma escola na qual por vezes me fez entender Graciliano Ramos[2]:

(...) iam meter-me na escola. Já me haviam falado nisso, em horas de zanga, mas nunca me convencera de que realizassem a ameaça. A escola, segundo informações dignas de crédito, era um lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes.

O que me espera na nova escola? Ainda não sei. Mas assim que souber e conto por aqui.






NOTAS



[1] Chamo luta-tranquila o que também poderia ser chamado de consciência, ou seja, uma atitude constante de não naturalizar questões antiéticas, não compactuar com injustiças, entre outras posturas.
[2] Trecho do livro Infância, de Graciliano Ramos, Editora Record, pág. 104.

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