Levi
Nauter
Vem sendo uma grata
surpresa as aulas com o professor visitante Lucídio Bianchetti[1].
O curso por ele ministrado possui basicamente dois objetivos: (a) refletirmos
sobre a importância da escrita e da leitura como ethos do pesquisador e (b) pensarmos a respeito da relação que
envolve um orientador e um orientando na pós-graduação. Suas aulas misturam
bastante informação, leituras, piadas, poesias e o raro compartilhar de
momentos que bem podem ser caracterizados como ‘falas dos bastidores’ da
orientação acadêmica. São histórias recolhidas ao longo de seus 41 anos de
experiência como educador.
O professor Bianchetti
traz informações preciosas, mas não inéditas – ao menos não em sua maioria. Do
meu ponto de vista, o que ele faz é encurtar caminhos. Aquilo que talvez
levássemos alguns anos para descobrir nos é revelado na sala de aula, o que de
certa forma é bom na medida da comprovação ou não no decorrer da experiência de
cada um. Outra característica importante nos encontros é, além da participação
de todos – com comentários e boas risadas – a alegria com que o educador
ministra suas aulas. Com a sala de aula preparada em formato meia lua, ele
passeia por todo o espaço, fala com voz mansa, mas também fala com o corpo[2].
De um modo mais geral esse
componente curricular (ou essa disciplina) pode ter seu início atribuído a uma
frustração. O professor havia escrito um artigo no qual abordara os temas da
relação interpessoal na orientação acadêmica e alguns meandros da produção de
dissertações/teses. Encaminhou a uma associação nacional. Não foi publicado.
Frustrado e provavelmente sobremaneira indignado resolveu que, juntamente com
outros colegas parceiros, iria tratar do tema e buscar publicizá-lo. Nasceu A bússola do escrever[3].
No entanto, uma cadeira universitária não é nem pode ser furto de frustrações,
faltaria espaço para tanta cadeira. Equivale dizer, portanto, que há muito mais
nesse Seminário Especial.
O Seminário está em
andamento, o que me força a comentar – por óbvio – apenas o transcorrido até o
momento. Nesse sentido o professor Bianchetti vem tratando de alguns aspectos
anteriores à dissertação e à tese. Pode não parecer mas há um caminho (para
alguns longo, para outros nem tanto) que se percorre até a chegada do momento da
escrita propriamente acadêmica. E mesmo essa etapa pode ser didaticamente
subdividida em: um caminho de leituras e um caminho de escrituras. Essa,
apresso-me em dizer, é a minha leitura do que estamos vendo. A partir da
leitura de Mário Marques[4]
é que essa visão vai ficando mais clara.
Marques defende que é impossível, principalmente ao professor, não ler e
não escrever. Uma ação estaria ligada a outra, ou seja, quem lê melhor
organizará o lido se em seguida escrever a respeito daquilo que leu. E o
caminho se seguiria na medida em que os acúmulos de leitura exigiriam cada vez
mais escrita. Esta também adquiriria um papel de organizador de ideias, algo
fundamental na escrita acadêmica.
Acontece que apenas
escrever sobre o que a gente lê/leu não basta. Schopenhauer[5]
há muito já fazia esse alerta: “Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só
repetimos seu processo mental”. Dito de outra maneira, é necessária uma
“liquidificação[6]”
de ideias, porém, não para haver um líquido baumaniano e sim para que haja um
composto misto que vai ganhando as características daquele que vai registrando
as próprias impressões no papel ou no computador.
Seguindo com essa ideia de
liquidificador. Nas vezes que fiz suco de abacaxi houve momentos que tive de
coá-lo, em outros até açúcar teve de ser levemente adicionado. O texto tem um
pouco disso, é preciso torna-lo mais palatável. Essa é uma outra nuance que o
professor Bianchetti tem buscado trabalhar conosco. Essa digamos palatabilidade
textual se dá, conforme Bianchetti, a partir do contato com os textos clássicos (Homero, Platão, Italo
Calvino, Guimarães Rosa), com aqueles que discutem áreas diferentes da nossa
(Eduardo Giannetti, por exemplo) mas que seguem o rigor da escrita, além dos
poetas e daqueles que escrevem histórias em quadrinhos. Lucídio Bianchetti faz
questão de observar que as obras essencialmente literárias, aquelas que se
ocupam da ficção, da verossimilhança têm o poder de traduzir em poucas e belas
palavras as nossas humanidades. Ademais, a busca pela ampliação do leque de
abrangência de nossos textos tende a nos fazer buscar leituras. Tanto a obra
aqui citada de Marques quanto os materiais do professor Bianchetti apontam pra
isso. Quer dizer, na medida em que vamos escrevendo (e portanto organizando
nossas ideias, nossos pensamentos) vamos notando algumas faltas, algumas
lacunas temáticas sobre as quais não temos domínio – o que gera uma espécie de
“uma leitura puxa outra”.
A respeito dessas leituras
mais específicas, visando à melhoria ou ao aprimoramento de nossos textos,
Bianchetti sugere-nos:
BIANCHETTI, L. (Org.).
Trama e Texto. Leitura crítica. Escrita criativa. 2 ed. São Paulo:
Summus, 2002. Vol. I e II
------------.;
MACHADO, A. M. N. (Orgs.). A bússola do escrever. Desafios e estratégias
na orientação e escrita de teses e dissertações. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2011
-------------;
MEKSENAS, P. (Orgs.). A trama do conhecimento. Teoria, métodos e escrita
em ciência e Pesquisa. 2 ed. Campinas/SP: Papirus, 20111.
CARLINO, P. Escribir,
ler y aprender en la universidad: uma introducción a la alfabetización
académica. Buenos Aires: Fonde de Cultura Económica, 2009.
DELAMONT, S.; PARRY,
O.; ATKINSON, P. Creating a Delicate Balance: the doctoral supervisor´s
dilemas. Teaching in Higher
Education, v. 3, n. 2, p. 157-172,
1998
JESUS, P. C. S. G.. Escrever na educação
superior: caminhos para autoria na universidade. Lages, SC:
UNIPLAC, 2013 (Dissertação no PPGE/UNIPLAC).
MARQUES, M. O. Escrever
é preciso. O princípio da pesquisa. 4 ed. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003.
OLIVEIRA, A.; ARAÚJO,
E. R.; BIANCHETTI, L. (Orgs.). Formação do investigador: reflexões em torno da
escrita/pesquisa/autoria e orientação. Braga, PT: Universidade do Minho, 2014.
Disponível em: http//www.comunicacao.uminho.pt/cecs/2
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teses e dissertações em educação. Brasília: Liber Livros, 2010.
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and New York: Routledge, 2010.
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http://dx.doi.org/10.1590/198053143294.
Em relação à leituras
menos acadêmicas mas não menos rigorosas em termos de escrita, Bianchetti sugere-nos
Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa. Mas também sugere
George Steiner, Henry Thoreau. Ítalo Calvino e todos os clássicos da literatura
brasileira.
Por fim um alerta que ele
fez questão de repetir várias vezes: ler essas obras todas, por si só, não
garante uma boa dissertação nem uma boa tese. Ler apenas nos deixa mais
despertos para os pequenos detalhes, lugar onde moram as diferenças.
E quanto aos temas que a
gente pretende pesquisar? “Não deixe de fora o que é considerado clássico
dentro do seu tema de pesquisa”, foi o seu conselho.
As aulas seguem.
E em surgindo novidades,
relato aqui.
NOTAS
[1] Pedagogo
pela UPF, mestre em educação (PU-RJ) e doutor em educação (PUC-SP) com
pós-doutorado na Universidade do Porto. É autor e coordenador de diversas obras
voltadas ao tema da escrita acadêmica – algumas aparecerão referenciadas ao
longo deste texto.
[2] Numa das
aulas, ao exemplificar que se deve conversar na altura dos olhos de uma
criança, naturalmente imitava, ao mesmo tempo, a criança e o educador
conversando com ela. Não titubeou em
sentar no chão para a representação.
[3]A Bússola
do Escrever: desafios e estratégias na orientação e escrita de teses e
dissertações está na 3ª edição, sendo publicada pela Cortez Editora.
[4] MARQUES, M. O. Escrever é preciso. O princípio
da pesquisa. 4 ed. Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003. Mário Osório Marques foi
professor de Bianchetti. Não menos importante é dizer que as obras de Marques
estão sendo publicadas pela editora Vozes.
[5] http://ateus.net/artigos/filosofia/sobre-livros-e-leitura/pdf/
[6]
Não sei se existe o termo, por isso entre aspas. Mas foi o melhor que me
ocorreu no momento da escrita.

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